Elas sustentam: Maria Firmina dos Reis

Mulheres que movem o serviço público  ·  Dia 4 de 5

Maria Firmina dos Reis: professora concursada, escritora pioneira, fundadora de escola gratuita

Existe uma mulher no século XIX que foi aprovada em concurso público, lecionou por décadas, escreveu o primeiro romance abolicionista do Brasil e, ainda assim, levou mais de cem anos para receber o reconhecimento que merecia. Seu nome é Maria Firmina dos Reis.

Nascida no Maranhão em 1825, Maria Firmina foi criada numa sociedade que lhe oferecia duas possibilidades: o silêncio ou o apagamento. Ela escolheu nenhuma das duas. Aos trinta e quatro anos, publicou Úrsula (1859), considerado o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira — e o primeiro romance publicado por uma mulher no país. Escreveu num momento em que a escravidão era lei, a voz feminina era interdita e a autoria negra era inexistente nos espaços formais da cultura.

Mas Maria Firmina não era só escritora. Era professora concursada. Ingressou no magistério público do Maranhão por concurso e ali permaneceu, ensinando, por décadas. Não satisfeita com os limites do sistema, criou por conta própria uma escola mista e gratuita — reunindo meninos e meninas numa mesma sala de aula, algo revolucionário para o período. A escola foi fechada pelas autoridades. Ela não desistiu.

“Mesquinho e sem valor é tudo o que escrevi; mas é de coração.”

Maria Firmina morreu em 1917, aos noventa e um anos, em pobreza e quase no esquecimento. Durante décadas, sua obra ficou fora dos currículos, das antologias, das histórias da literatura brasileira. Foi preciso um esforço coletivo de pesquisadoras negras, especialmente a partir dos anos 1970 e 1980, para devolvê-la ao lugar que sempre foi seu.

Para o SINDSFOP, Maria Firmina representa algo que toda servidora da educação pública conhece: o peso de construir com poucos recursos, de ensinar num sistema que nem sempre apoia, de criar onde outros fecham portas. Ela é a ancestral de cada professora que ainda acredita que a escola pública pode mudar vidas.


Quarta publicação da série “Mulheres que movem o serviço público”, produzida pelo SINDSFOP em homenagem ao Dia Internacional da Mulher 2026.